Nevo associado a melanoma: características clínicas e dermatoscópicas

Por Fernanda Simões Seabra Resende e Flávia Vasques Bittencourt 

 

O melanoma corresponde a apenas 2,3% de todos os cânceres cutâneos, mas é responsável por mais de 75% dos óbitos associados a essa neoplasia1. Estratégias atuais visam minimizar a morbimortalidade associada ao melanoma cutâneo, com foco em medidas de proteção à exposição solar e na identificação minuciosa de precursores ou marcadores de risco identificáveis como os nevos melanocíticos2.

A presença de múltiplos nevos melanocíticos é um conhecido e importante fator de risco para o melanoma. Estudos retrospectivos caso-controle mostram relação direta entre o número de nevos e o risco de melanoma (2 a 14 vezes maior em indivíduos com múltiplos nevos)2-9.

A associação do melanoma com nevo melanocítico tem sido bastante estudada com a expectativa de uma melhor compreensão da biologia do melanoma. Estudos histopatológicos reportam essa associação em aproximadamente 30% de todos os melanomas excisados10-14. Mas este percentual pode estar subestimado, devido aos casos potenciais em que o melanoma destrói as células névicas. Com isso, a evidência da associação não poderia ser identificada 10,15.

De acordo com alguns autores, história pessoal de nevo associado a melanoma (NAM) é o fator de risco mais importante para outro NAM. Isso ocorre mais frequentemente em adultos jovens com alta contagem de nevos e em áreas de exposição solar intermitente como o tronco e as extremidades 16-23.

Embora não existam dúvidas de que certa proporção de nevos melanocíticos irá sofrer transformação maligna, a incerteza está em qual tipo de nevo deve ser considerado de alto risco de progressão para melanoma. Enquanto muito trabalho se concentrou na identificação dos padrões de nevos e melanoma, pouco se tem conhecimento atualmente sobre os critérios clínicos e dermatoscópicos do NAM.

A partir dos conhecimentos dermatoscópicos do conceito duplo da nevogênese e da avaliação das mudanças dinâmicas sofridas pelo nevo ao longo da vida do indivíduo, infere-se que o melanoma pode apresentar características topográficas distintas em cada tipo de nevo24.

Este conceito duplo de nevogênese, proposto por Zalaudek e cols a partir dos aspectos dermatoscópicos dos nevos melanocíticos, considera que a via congênita dá origem a nevos com padrão globular/clod ou padrão marrom sem estrutura, presentes ao nascimento (verdadeiro nevo congênito pequeno) ou com aparecimento na primeira infância (nevo congênito pequeno tardio) e que persistem por toda a vida do indivíduo. 

Já a segunda via da nevogênese considera o nevo adquirido aquele que se desenvolve depois da puberdade, inicialmente caracterizado por glóbulos marrons periféricos, que evoluem para um padrão reticular predominante (composto superficial) ou padrão reticular misto (composto profundo). 

A partir destes conhecimentos dermatoscópicos do conceito duplo da nevogênese e da avaliação das mudanças dinâmicas sofridas pelo nevo ao longo da vida do indivíduo, infere-se que o melanoma possa apresentar características topográficas distintas em cada tipo de nevo24.

Os melanomas associados ao nevo congênito parecem se desenvolver centralmente ao nevo24, enquanto no nevo adquirido o melanoma se desenvolve aparentemente adjacente ao nevo24, como mostrou trabalho retrospectivo e multicêntrico publicado recentemente por Zalaudek e cols. (Figuras 1 e 2). Trata-se de um estudo pioneiro em documentar a localização topográfica do melanoma associado ao nevo congênito e ao nevo adquirido.

As diferenças epidemiológicas, demográficas e morfológicas entre os melanomas que surgem no interior e adjacente ao nevo apontam para duas vias diferentes de desenvolvimento do melanoma proveniente do nevo. Esta teoria está de acordo com este conceito dermatoscópico de nevogênese, que propõe que os nevos se desenvolvem a partir de dois caminhos possíveis: a via congênita e a via adquirida24.

Ainda segundo Zalaudek e cols a dermatoscopia aumentou o reconhecimento dos NAM em até 67% dos casos, identificando que a presença de glóbulos/pontos regulares era mais comum no nevo congênito associado ao melanoma, enquanto as áreas de hipopigmentação sem estrutura foram mais frequentes nos nevos adquiridos associados ao melanoma24.  

No que diz respeito às características dermatoscópicas específicas do melanoma nos NAM, Shitara e cols mostraram rede pigmentar negativa, presença de glóbulos e estrias como critérios diagnósticos25. Zalaudek e cols também identificaram a presença de glóbulos irregulares no melanoma associado ao nevo, mas raramente rede pigmentar negativa e estrias. Importante salientar que nenhum método atual permite prever qual nevo irá sofrer transformação maligna. Desse modo, a excisão profilática de nevos não é recomendada24. 

 

Referências Bibliográficas: 

 

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